BONITO / MS

31º

21º

segunda, 23 de outubro de 2017

Marcos de Castro Carvalho

"Minha mãe nasceu numa fazenda em Bonito e foi me ter, temente a Deus e aos médicos, em Aquidauana/MS. Nasci em Bonito/MS conjuntamente, onde passei minha infância e adolescência em meio à natureza, cercado de animais, cores, cheiros e amigos, muitos amigos."

Marcos de Castro Carvalho
marcos@portalbonito.com.br

Marcos de Castro Carvalho é Arquiteto e Urbanista, formado em 1995 pela UNIDERP / Campo Grande MS.

Reside em São Paulo a quase seis anos, e vem desenvolvendo projetos diferenciados na área de arquitetura. Nas horas em que cessa o ofício escreve poesias e contos. Desde muito cedo escreve, mas foi na Universidade que seus dotes na escrita foram aparecendo e dando-lhe a confiança.

Agora em São Paulo desenvolve seus estudos na área da literatura, onde tem estudado e lido um número variado de autores, sobretudo na poesia e nos contos. Tem tido a orientação e o aprendizado de professores da USP, onde futuramente quer desenvolver o seu mestrado. Neste momento prepara um livro de poesias e paralelamente um pequeno conjunto de contos - deve enviá-los a uma editora até outubro deste ano e por ventura - bem aventurado seja! - editá-los.

Árvore

Quando vejo uma árvore
Vejo uma árvore
Quando vejo um rio
Vejo um rio
E também nele a face ...
De trás para adiante o rio não corre
Não!
Não pude ver este rio.
(que viria de encontro)

As filhas do fazendeiro
[se casariam

No casamento de Rita
Moça alta bem vistosa
Morreram nove bois
Estórias, estórias
Sapecavam os sorrisos esfomeados!
Prato de mandioca, arroz,costela e
[lingüiça.

No casamento de Leida
Moça bela de olhos esmeraldados
Morreram onze bois
Perguntas como:
- Você viu quantos bois morreram ?
(quanto mais bois, mais suntuosa era a marca do fazendeiro)
O espeto fincado aos pés
A faca baba afiada
[gulosa.

No casamento de Nina
Moça também muito alta, muito bela
Morreram, ah! Se morreram uns quinze bois
( e a população era um neto aqui outro acolá ...)
Quanta comilança
Salgado, doce, salgado, doce,salgado, doce
[polca paraguaia.
Devaneio que levanta poeira do chão
[batido.

Seu Ivo
O fazendeiro
Coisa de umas treze
[fazendas.

Bienvenido

Abram com placa bem grande de bem vindo
Abram bem os braços aqueles rios
Abram bem a noite aquelas estrelas
Abram bem os bosques aquelas árvores
Abram bem as copas aqueles morros aventados
Abram bem com correria aquelas emas
Abram bem aquelas estradas empoeiradas
Abram bem aquelas brandas porteiras
(mas não as fechem nunca.)

Evocação salobra

São transparentes tuas águas
Sob mergulho permitido
Lá em teu fundo um punhado
De coisas de água
Também tem coisas de peixes
Também tem coisas de calcário
Também tem muitas margens
E das quedas que cedem a tua geografia
Também tem partes de profundezas
De dia mais ainda no rio
De noite mais ainda no céu
(e são tão transparentes as tuas metáforas!)

Memento

Nas montanhas
Arredores e gruídos
Ruídos definidos que antecedem
Cedem ao meio do rincão
Os ipês
As onças
O sol de perto
Os adjetivos
Nos c e r r a d o s
Canções de devaneios
Fagulhas e alvoroços
Música do diafragma maternal
Mãe
As guaviras
As emas
As borboletas
Nos riosssssquecorreeeemmmm
Liquidificam sensações
A chuva aprisionada ?
As piraputangas ?
Ao sopé das margens as antas ?
Os adjetivos os adjetivos os adjetivos os adjetivos...
Os tantos.

Memórias póstumas


Hoje acordei ontem
Ontem acordou em mim
Num manifesto a saudade
Ontem hoje é passado
Quando sobrevivo sobre a vida
Sobreaviso do presente:
Ele diz sentir-se muito.
(juro não mais se chamar saudade)


Momento sobre o rio
(o quão formoso)


Sob o rio porventura
Abaixo da celeste neste azul
Do céu

Sobre o rio nada hipótese
Fundo rendilho da luz
Do calcário

Sob a lâmina afiada que toro
Repousado no galho morador deste rincão
Esqueça-te

Sobre ávida a mata ciliar
Que abraça e se joga ao rio de imagens
Esqueça-te

(neste rio que lava-te a alma...)

O morro

(num dia de frio)

Risco de frio
Riso de frio
Morno morro aquecido de cores
Vou por ali e por lá
Com este vento que branda os pássaros
Vou por ali e por lá
Morno morro que me sopra de frio
Um friozinho aqui e lá
Para nunca mais parar de aquecer.
(nunca esquecer)

O punhado de estórias

Num dos punhados caminhos do tatu
Sobre a terra vermelha um punhado
De tatus no olho da noite num punhado
De sacis e lobisomens empunhando o medo
Que até os tatus correm à mercê do léu num punhado
De barulhos que a mata traz num punhado daquelas casas
De fazendas num punhado de quebra torto num punhado
De homens saindo de manhãzinha num punhado de bois
Para tocar num punhado cerrado de amanhecer num punhado
De estórias da noite contada passada no breu em que
Dona Maria viu uma bola de fogo na porteira
E ficou com um punhado de medo de assombração
Ficou bem quietinha no alvorecer servindo o carreteiro
E no punhado de entardecer boreal
(contou só para os netos)
(os tatus estavam quietinhos na toca ouvindo)

Prelúdio notívago

(as guaviras)

De noite
Aquelas ruas nuas que me levam de estrelas
Aquela solidão da lua que me leva temporário
Quando não havia ninguém na pracinha nem o guarda
Nem ninguém só o busto que espelhava a lua
Solitário
De noite
Aquele breu divertido de coruja e de sapo no pula-pula
Aquelas noites naqueles dias daqueles tempos
Aquelas guaviras entorpecentes inconseqüentes absorventes
Aqueles frios de intensidade aqueles barulhinhos
Do pé de paraíso aqueles issos aqueles eixos tão definidos
De noite
Aquelas ruas nuas que me levam de estrelas
Aquela solidão da lua que me leva temporário
Quando não havia ninguém na pracinha nem o bêbado
Vindo do bar na cantoria daquela noite que virava ontem
Já não mais amanhecia...
(A saudade escorre para o passado e alastra no futuro)
De noite daqueles banhos lá no formoso
Paraíso
Alastro de mim!
Formoso ápice naquela noite
De noite de noitinha a cabeça era relva
Sonhos na relva...

Prólogo da Serra da Bodoquena


E tenho um desespero louco
E tenho olhos para o ver
E tenho devaneios exacerbados
E tenho tantas trilhas pegadas
E tenho o vento tomado na minha cara
E tenho o ápice incandescente
E tenho árvores num punhado demasiadamente...
E tenho as canções delas e as flores
E tenho um cercado verde e um verde que me cerca
E tenho um arrepio solto um desespero louco e tenho
Outros olhos para ver
Outros devaneios
Outras tantas trilhas pegadas
Outros ventos e outras estações
Mas o ápice ...
Apeia
(com o nome de Vida)

Rememoro

Que desde muito cedo
Havia me despedido mesmo que lentamente
Daquele lugar mesmo que alegremente
Restavam-me as férias mesmo que terminassem
Não queria ir embora embora depois já esquecido
Não esquecido num fingido de mim que
Inda hoje depois de consumido megalópoles
Não hei de me despedir da cultura nem dos altos edifícios
Daquele lugar mesmo que alegremente que me urge
O fardo da saudade grande megalomaníaca que me vaza
Agora hei de me despir como gente grande que inda hoje
Mesmo consumido das emendadas megalópoles
De que tudo que me valeu está intrínseco nas raízes
Alastradas por limitada área específica em agora
Cantarolando...
Bonito está em mim em mim está a pedra o sapo da pedra
Em mim o leito do rio a dissertação das cigarras em mim
Está mais que margeando - estendendo-me sobre as cheias
Bonito está em mim.

Bem-te-vis

Queria escutar os bem-te-vis
Que ouvia a luz da manhã
Mas queria aqueles bem-te-vis
Da minha infância
Queria que eles voassem
Por cima do meu céu de ilusão
Bem-te-vis do meu coração
Queria brindar com eles
Meu carrinho de bombeiro
Oferta do natal de setenta e cinco
Bem-te-vis que sempre os terei
Em minh'alma

Lembro-me...
Oh! bem-te-vis!

Lembro lembranças lembro recordações
Lembro das cercas dos pastos e lá do alto
Os morros ventando lembro de chupar laranja
Com sal lá do meu quintal
Lembro das porteiras da fazenda até dos mata-burros
Lembro da goteira no balde juntando água de chuva
Lembro da água salobra pesada lembro do armazém
Do meu pai que cortava fumo de rolo lembro
Da minha mãe apontando cadernetas e somando rápido
Na máquina de calcular lembro
Da minha irmã na audição de piano o vestido tinha cauda
O piano não lembro da minha escola dos meus amigos
Do meu querer ser grande lembro e até sinto o cheiro
Como escuto o soar nos ouvidos dos meus tantos bem-te-vis!
Lembro do menino franzino
De sua alma lembro
Que o menino sou eu!
Então ouço novamente os bem-te-vis...
(serão meus bem-te-vis da infância?)


Pilad' Rebuá

(chique outrora)

As ruas de Bonito
Que tilintam conversas
Que desanda de amigos
Que urge naquela década de oitenta
Eu sou oitenta eu sou oitenta e poucos e não sou ninguém
Distraiam-me com aquelas ruas
Rua Pilad' Rebuá que nos separavam por quadras
De noite tudo estava calmo
De dia provinham transeuntes conhecidos
Na qualidade presente dadivosa
Embelezávamos aos olhos forasteiro
A impávida natureza !
Passaram-se noites
Passaram-se dias
Muitos desses ...
Distraiam-me com aquelas ruas
Com a Pilad' Rebuá que separavam-nos por ofícios
Os meus são vertiginosos
(devo reclamar de boca cheia)
Reclamo e clamo as ruas de Bonito
Eu e meus amigos
Numa rajada de eco seco.
(eu sou oitenta eu sou oitenta e poucos e não sou ninguém)


Chão

O vento
Sobre a imensidão
O carro também ventou
Voltando da fazenda
Sobre a carroceria
Via o ponto mais distante
Do presente
Vejo o ponto mais distante
Do passado
Os cupins em meio ao cerrado
Os coqueiros as árvores os pastos as aves
As cercas solitárias no pueril
As estradas
As pontes
(pontes que já não mais trazem-me de volta)

Ante passado


Lua tua
Minha rua
Meu reflexo onde está ?
Neste asfalto nesta terra neste rio
O passado que alguém viu
Lua tua tua nossa e vossa
Esparrame nesta rua o reflexo
De ontem está ?
Nesta vida ao pé do vento
Na poeira no pensamento
Lua rua reflexo asfalto passado vosso
Esparrame esta vida
E que pense o reflexo sob aquele Bonito passado
...
(pois que antes já se faz tarde demais.)

Um conto
(um dia)

Atola o carro
Desatola o carro
Barro barro barro
Chuva chuva chuva
Nade nade nade
Perturbe ao dia inteiro
Amanheça amanhã
Anoiteça com as rãs
Manhãs manhãs manhãs
Acorde com periquitos
Bolos bolos bolos
Amanhã amanhã amanhã
Antes que anoiteça
Fazer viver viver fazer viver
Já fiz já feito já fiz já feito
Sonhar sonhar sonhar sonhar
(sonhar com o passado faz bem)


Da Metrópole Avisto

Tá vendo aquela amplidão do tempo?
Lá onde o final se consome orgânico
Lá onde a canção que se canta consome
Lá onde se pensa que finda é premissa leal
E aquece e nunca se esquece a verdade embrulhada
Nos olhos amedrontados que tecem o orvalho
Lá para o final da serra seu pulso marca
Lá tantas horas de seu mundo que cai feito fio
Lá este fio que ventila lágrimas do que somos
Soa a resposta em ventos que então fazem o pensar
Lá onde o desandar é tão pertinente seguro que a
canção
Que escuto é a mesma no escuro donde nem sei atinar
Lá o que serei ou será se transforma em pedaços
Lá bem longe deste ar que respiro e suspiro e devaneio
O planar de urubu rei e tão pouco sei daqueles tantos
Reinados
Enxertados de complexos e todos anexos e embrulhados
Em compactadas nuvens ...
Lá !
Ta vendo aquela amplidão do tempo?
De noite bem escurecida só as intempéries me consomem
De dia a amplidão me cega.
(peço exílio da vida)

Turismo?

A demanda impactuosa
Sobre e desandam sobre
A região interlocutora da vida
Sobre e desandam sobre
A cidade de Bonito
Sobressaltada se assusta...
(os coqueiros neste momento se ventam!)
Sobre e desandam sobre
Geomórfica e delirante vazão
Do homem que se funde ?
Plano diretor - linha do equador ?
(a demanda das emas nos cerrados)
Transformações sociais decorrentes
Sobre e desandam sobre...

Musgo
("minha terra tem coqueiros onde canta o sabiá...")

Lá é tua terra segura
Lá em teu infinito musgo
Certifique-se daquelas construções
Daqueles restos vividos acometidos
Da mais alta rocha fragmentada de pó
Complexas elucidações prestes
À cornija e ao tempo
A cornija ao tempo...
Descubram se do alto podem avistar
Se de lá todo o complexo é difuso
Ou se toda a coesão é ingrata
Peço que descubram o sintagma
Lá na terra bem ao chão marrom
Onde o musgo permeia norteia e se enfeita
Que gruda a cornija ao tempo
Descubram se do alto podem avistar
Se podemos dizer que sim
E convalescer-nos irremediavelmente neste mundo
(salve o mundo das idéias!)
(salve Platão!)
Nesta terra segura de pensamentos.

Temporário


Vento que me leva
E o céu tão cinza e as árvores que se deixam
Em algum lugar as araras se amontoam
Rufam os tambores de trovoadas
A chuva cai lavando
(as lavadeiras cantam a alma)
Ao fundo do rio os peixes almejam a terra chovida
A chuva vai se indo embora
Esta chuva que me leva à casinha da fazenda
Onde lá almeja o eu
Ao fundo de mim que almeja esta terra chovida ...
Retenho aquela imagem de chuva !
(sentado - sem nenhum vestígio dela)

Aquidabã


Um véu desmantelado
Branco esfumaçado itinerante
Rompante que cede em precipício
De água louca
Desdenha-se lá de cima
(por segundos tem a posse do mundo)
Elas - as águas que não se voltam mais
Mas são as mesmas em seus d.n.a.s
Parecem a se parecerem as mesmas
Naquele mesmo lugar vertente
Onde cai gananciosa precipitando-se
Ao pantanal dos índios
(donde pinturas se foram com estas águas)
(seus d.n.a.s tramam em desmoronamento)
Cai da montanha com murmúrio constante
Aquidabã que aqui dá sonho sobre a relva
(dir-se-á da mesma relva idolatrada por Walt Whitman)

O saci-pererê


Minha tia viu:
Na porta do açougue quando adentrou
Ele foi quem pediu - só umas iscas !
Disse ela sentir um poder de fala nenhuma
E via ele pular certinho de uma perna só com o gorro
Meu avô esperando a carne para o almoço
Minha tia sumindo em direção imposta
A Julieta amiguinha dela bem pretinha
Espantou o saci - lá pelas bandas do cemitério ...
Acordada - perdeu de vez à vontade de não falar!
No dia seguinte foi batizada às pressas
(o saci não pega quem foi batizado)
Mas o assovio dele ainda zumbe
(minha tia disse que tem um zunido forte)
(tia Ilza não é de mentir)

Sinhozinho

Um dia na cidade
Apareceu um homem diferente
Milagreiro
Os muitos que se julgavam de índole
De tão fervorosos desacreditavam
Seus medos apavoravam aqueles feitos a olhos nus
Zombaram do milagreiro
Dar-te-iam a morte naquela noite sem lua!
Numa lua nova quando reapareceu
O milagreiro de nome Sinhozinho
Sorria para aqueles homens de falsos credos
Contando-lhes alguns princípios elementais
Que estes estariam presos numa caverna
A pedra que trava esta caverna é transponível
(desde então partiu o milagreiro)
(que não foi mais visto em lua nenhuma)

Rincão Bonito

Fico pensando o quanto era bonito
E o quanto aquela beiras de rios
Eram altas e as matas ainda mais
O quanto rústico era já que minha mãe
Nascida em trinta e oito do século passado
E mais ainda minha avó da década de dez deste citado século
Já me parece isto um rincão ...
Fico pensando aqui do presente
Presentemente vem um friozinho
Vendo aquelas beiras de rios
Abaixo de meus olhos de menino
Fico pensando sobre aquele galho submerso na água
Quantos galhos já caíram por ali
Fico pensando que quando a cidade de Bonito
Era uma fazenda chamada de Rincão Bonito
Fico pensando com olhos de ver mais
Que ainda pouco vi algo bonito...

(desprendido do galho d´água vou me indo de correnteza)

Salve São Sebastião!

Lábaros
Na terra havia lábaros
O todo era vermelho
(na condição de onde o sangue é vida)
Gruía atemporal
Tempos deixados aqueles
Daqueles cavalheiros
Que "Quixoteavam-se"
Na procissão era assim
No dia de São Sebastião
Bonito fazia anos
Aqueles estandartes que diziam
Que de mais alto não eram os fogos ...
Podia-se ver desde aqueles cavalos
Lábaros de promessas verdadeiras estampadas
De uma certa forma os corações gruíam ...
(com a procissão de velas a velarem)
(o fenômeno escondia-se ao fim da quermesse)

Espectro

O rio esverdeia-se
Momentos de borboletas sobre ele
Ali no rompante aquoso
O pensamento em nada
O nada sobre muitas coisas
Sob aquele rio o vento morno
É dia
Dia de borboletas de verão
(momentos de pensamentos sobre elas)

Raízes

A vida
Um punhado de estórias
Histórias contadas
Passado
Passado ao presente
Passa o rastro ausente
A vida que se embola
Na memória
Memórias...
(no pantanal das estações o tempo desliza)

O lobisomem


Preta faísca de pêlos peludos
Zomba seu uivo na fazenda escondida
Da porteira se avista o clarão da lua e
O vulto preto que se emerge
Vira lobisomem ainda homem
Esconde-se na metamorfose
Ou na carcaça de velho cansado
De noite esbanja-se num rompante de caça
Circundando a área - no galinheiro e na casa
Meu pai só ficava com o pé dos ouvidos atentos
Sentíamos frio de calor e calor de frio
(também metamorfoseávamos)
(então cobríamos as cabeças com o cobertor)
..
Para acordar de manhãzinha sobre pegadas
Seu Altamiro de cor amarela esbranquiçada
Já tirava leite no mangueiro
(dona Ziza desconfiava dele e não tinha medo)
(não era de usar cobertor inda mais em dias quentes)
(meu pai dizia que era tamanduá bandeira...)

O galinheiro

Na minha casa
Que era a maior quando eu era criança
Havia um galinheiro
Que era o maior quando eu era criança
Meu pai desnucava a cabeça da galinha
Cabeça -tronco-pescoço-pula-pula-morre
Minha mãe depenava-a com água fervente
Penugens-arrancadas-uma-a-uma-penas-pena
Era justo tentar salvá-las
Mas quem comeria sua saborosa coxa
Sentando-se primeiro a mesa que todo mundo
Era eu mesmo !
(cara de cordeirinho e coração de opressor)

O Cotidiano

(interiorano)

Que desperta morno
Morno será com adornos
De um passado como um piscar
De olhos que se vão de enxergar
O cotidiano que não desaparece
De passado de repente dá uma saudade
Que dói
(a dor é quente)

Estudando na Capital


De Campo Grande a Bonito
Eram seis horas de viagem no pinga-pinga
Quando não caía a ponte do roncador
(confesso que já fiz em nove horas)
Mas se ia naquela viagem com movimento de quadro
Do lado de fora a paisagem de quadro
Chegava comigo no destino destinado
E como o cerrado era bem amplo
Suas matas que se iam comigo ventando
Também tomavam banhos de cachoeiras...
(sou guardado por estes ventos - na sua propriedade máxima)
(eles ventam no passado -mas de repente no presente voltam)
(e tocam nossas faces com aquele mesmo sopro)
De Bonito a Campo Grande era volta
O vento revolto em mim
Acordado as cinco da manhã em único horário !
(ia sem poesia)
(até desemburrar)

O Acampamento

Êxtase de ninguém senão de nós mesmos
Poderiam compreender se
Fossemos indo de brincadeira
De águas e de folhas
Fossemos indo de abrigo
Ao coração da mata
Fossemos indo indo indo indo
Não se via o infinito
Quando eu era menino ainda sinto
Os sentidos de quando ainda era menino
(faz-me pensar no tempo e não em suas intempéries)
É como compreender um dia de chuva
E embaixo dela um banho de bica...

O Dueto de Platão


De noite que em breve já amanheceu
Ali ao meio do mato visto este mato
Em que meus olhos percorrem o eixo
No qual confirmo a cilindres da terra
O sol está alto - fato este pela manhã
Folgam-se as sombras na maioria amanhecida
E sou despertado por borboletas cubistas
Nado de costas no filete verde do rio
Nado a presença minha e de quem vejo
De dia em breve apagar-se-ão vestígios de luz
Ali ao meio do mato visto este mato
Em que meus olhos percorrem o eixo
Nada antagônico a Deus
Confirmo todas as perspectivas e suas cores
Há sombra que chega para cada minuto
Não percebemos tais minuciosos fragmentos
Devo-me ir investigando pela janela do automóvel
O cilíndrico espaço que vejo silenciosamente ...
Os amigos - (fiéis escudeiros de Sancho)
Sim - eles percebem
Apercebidos de perspectivas e cores

Uma rapsódia de torpor ao jovem
(ouça-se o cantar dos colibris)

I

Uma manhã de vento ameno e nuvens pequenas
Na mata cantante estufa o peito os colibris
Ouve-se o murmúrio do rio que corta transparente
O verde abrupto das águas por decerto lavam-no consigo ...
A entreposta figura que vê deportada olha em si o pouso
E a borboleta que pode voar e já foi lagarta para rastejar
Proclama a metamorfose perfeita - a catarse inigualável

Retrato do cheiro abundante nas narinas ensandecidas
Retrato outorgado da vida com cara de rapsódia derivada
O suspiro tênue esta postado de costas em cega pertinência
A rede estava ninada com sentimentos contra a atualidade
E os fatos do mundo na profilaxia atordoada intangível
Os olhos em meios olhos precedem a visão da clausura
Não ! em cima das copas das árvores
Não ! embaixo no subsolo terrestre
Não ! no pujante pensamento lascivo - entre a terra e o céu

Num momento corta o rio uma canoa com dois homens
Dois homens que se vão deflorando a superfície
Dois homens que se vão e não vêem e não vêm
Ricos homens sem esta indecência nervurada !
A figura entranha se esconde embrulhado
Em baixo vê um punhado de piraputangas alaranjadas
Embora refletido sobre a lâmina d'água finge nem ser
Tange a problemática e incisiva
Tange a insuficiência que não alça vôo nenhum
Tange a revoada de tucanos em seu lugar - entre a terra e o céu

II

Aqueles homens se foram de si.
Quem voltaria a sê-los ? gritou seu pensamento arrependido
Gritou do fundo anímico de seu ser
Gritou e seu eco derradeiro de manifesto antropomórfico
Preferia ser bicho naquele instante pois se era o bicho
Preferia ser bicho naquela instância ensolarada
Era ele o homem que se adentra copiosamente
Que se lambe inoportunamente que se come
Em palavras malarmaicas na elucidação
Era ele o homem !
Era ele o bicho !
Sabe disso quando transmudado o pensamento o condenava
Não deixou vazar a mente que ouvira na canoa
Uma conversa afiada na simplicidade da vida
Como aquele momento sobressaltado de púrpura e enigmática
Coesão onde o vento tinha o sopro da floresta que deixava o rio
Reluzente no rasto de suas folhas ...
Proclama a metamorfose decodificado - a catarse é inigualável
Meio dia.
Foi-se ele e um punhado de borboletas.
O rio ficou indo o tempo todo sereno.

O cemitério
(a impressão que se dá)

De longe os entes queridos
Desfazem-se
No jaz calcado de jazidos
Entre mármores e cruzes
Calado como uma tumba
Só entre o pio do passarinho
Vê se o remelexo do ninho
De longe os entes queridos
Desfazem-se
(não haveriam de ficar por ali)

O plantador de flores
(vê-se também de cima da árvore)

Numa casinha antiga de taipa
Haveria de ser numa casinha destas
O homem plantador de flores
As cores plantadas por ele

Nesta casinha do vale
Os girassóis que giravam
O homem plantador de flores
(observado de sobrevôo)

O Autor que não era Deus passou
E não fez senão referências divinas
Exclamando soberbo em tecnocolor
Aquele vale acobertado

Aquela taipa bem posta e singela
Haveria de ser numa casinha destas
(e mais nada de muito real)
(as matizes o Autor achou que seriam de Deus)

A gota
(o pingo)

Condensada e torrencial
Não seria passageira
Nem talvez à mercê
Mas molha respingando espaçamentos
De manhã bem cedinho
Que agora devagarzinho cai
Os pássaros as golpeiam no jardim
(no jardim de todas as gotas)
(neste mesmo jardim gotejante de pensamentos)

Cigarras

Úmidas do orvalho
Secas
Grudadas
Morrem
Sem tédio
Saudosas
Das tantas canções

Soneto ao rio Formoso

As águas de cristal rompem a mata
Ao verde acolhedor do azul do céu...
O peixe tão submerso sobre o véu
Da cachoeira faz ninar e acata

Uma divinal luz que reluz prata
Quando corre azulada sobre o mundéu
Pelo fundo profundo de um rio ao léu
Que sedutora aquática nos cata!

Da límpida morada o peixe exclama
Olhando um caracol sempre feliz
E um lisinho pintado sem escama

E vai à corredeira que condiz
É vermelha, vertente cor da chama !
Pois clamo em banho seu feito aprendiz ...

Domingo de Confissão

Primeira comunhão na minha cidade
Primeira confissão com o Bispo
Primeira vez perante o Cristo
(a missa longa cansava)
Primeiro pecado ?
Primeira vez que senti
Primeira pós-comunhão
Primeiro com meu pai
(com a cabeça tomando vento em cima da camionete)
Primeira vez que me senti sem pecado nenhum
Primeira sensação de leveza de alma ...
No primeiro raio de sol da manhã seguinte
Amanheci pecador
(não queria confessar-me ao Bispo com suas perguntas indiscretas)
Permaneci pecador
(como dizia minha avó - neste mundo de meu Deus!)

Pedacinho de mim

Um tronco de árvore
Adormecido ao chão
Aos cílios do rio

Aos cílios do rio
Adormecido ao chão
Um tronco de árvore

Um tronco marrom
Adormecido ao verde
Dos cílios ao transparente esverdeado do rio ...

(não quis pensar em morte)
(quis pensar no tronco como poesia)

O bote

Nestes dias de inverno
A sucuri espreguiça-se nos galhos
Que se deitam à beira do rio
Há um espasmo de saracura
(naqueles turistas que as vêem com espanto)
A sucuri espreguiçada
Com a ponta da cauda sente o frio do rio
Com estado de pedra em seu deslize
Prefere o sol
(sem fazer espasmos nenhum por ele)

Lua cheia

Considero o luar sobre a mata
Denso em seu tonal prateado
Considero a mata instante
Com seus barulhos de dia-noite
Considero o luar sobre a mata
Considero as estrelas
Densa em seu tonal prateado
Minhas considerações chegam a nem se findarem
Quando o dia consideravelmente se orvalha de amanhecer ...

Puchero

(receita de fazenda)

Costela com mandioca-cenoura-batata
Em pedaços grandes
Miudezas de temperos
Cebola-cebolinha-cheiroverde-alho
Frite e doure
Faça de que permaneça ao fogo
Cozendo até o passar das horas
(espere com memórias lembradas com os amigos)
Depois do caldo grosso-cheiroso
Pimenta-pimenta-pimenta
E depois "de la siesta"
(e depois acordar faceiro)
Há faceirice dos homens nas pequenas coisas...

Momento


Por um momento de terra
E estrume
Por um momento de vacas
E porteiras
Por um momento de árvores
E pássaros
Por um momento de estradas
Parti!
(no seu rasto momentos de saudades)


Doce de leite


Doce de leite
Feito no tacho à lenha
Leite-açúcar-leite-mão-boa-mãe
Até que dê no ponto
Raspa-raspa-raspa
Do tacho com bocas nervosas
Depois virava compota
(o que ficava na compota a gente comia com o tempo)
(nesta mesma compota prezam-se as memórias)


As nebulosas


Um dia um céu estrelado
Há muito tempo atrás
Um céu estrelado que deixei para trás
Eram chuviscos
Viços viços viços de estrelas
Na via-láctea em que passei
Num dia de céu estrelado
Que nunca se desfez
(uma coruja - um morcego)
(de noite a mata quieta - com suas inquietudes)
(os bichos estão em meio - às estradas com o chão)
(há brisa especial - sopro escondido da noite)
Estes chuviscos de issos
Num dia de céu estrelado
Há muito tempo atrás ?
Um céu estrelado que deixei para trás ?
(para as sensações descartamos o espaço-tempo)

Água decodificada


Uma subida
(quer seja do galho à beira do rio)
Uma descida
Uma curva
(quer seja de rio)
Para eu descansar
Jogar palavras ao ar
(quer seja escorregada ao rio)
Vou atrás de minhas sensações
Mas as piraputangas se alimentam delas
(o rio que me desanda de sensações me alimenta)
Uma pedra em face imagem de calcário
Um galho-lenha fingidor de pedra
Por um momento, um eu de água
(a metamorfose catalisadora de Kafka)
Por um momento de peixe que sou

Fiapinho de tempo

A fonte luminosa da cidade
Da pracinha
Que esguicha água colorida
E também frescor
Era cheia de quero-quero
As pombas foram sumindo aos poucos
Os vira-latas eram grande maioria
De dia a face mágica da fonte não reservava cor
De noite a face mágica da fonte
De fronte
(e palavras jogadas nas calçadas -o conversê pinça a pracinha)
Depois
Depois anoitecia bem para amanhecer
(a cidade luminosa de sol era uma fonte só)

O homem-peixe
(anfíbio)

Pulei de ponta no rio
A água me impôs um certo ar de bolha
Não consegui voltar à superfície
Naquela porção de copo de - águas
A sede do corpo de garganta bebia
Sabia acima do fio aquoso
Das árvores
Estava veloz no tão submerso
Dos calcários
Peixe-escama-homem
Tive ânsia em olhar de peixe
Quis romper o filete aquoso
Quis desmerecer-me de brânquias
Apressei minhas nadadeiras
Tresloucadas que me levaram ao chão
(entendi a agonia do peixe no sopé da margem)
Desacordado de nadadeiras
E perturbado de metáforas
Ainda lá
(homem-criança-menino)

Há saudade

Na visão
O infinito não se acaba
O mundo que desanda
Vento no rosto
Osto sto o ...
Poeiras que se vão
Dividir a saudade
Saudade indivisível
Que sorri para mim

Volver

Viver
Em resto
De mim
A saudade
Meu pedaço grande
Que se foi
Viver agora
Átomo indivisível
Do meu pedaço grande
Que se foi
Viver o resto
Restinho de mim

Córrego Seco

Hoje acordei numa saudade de rio
Esta saudade que me toca
Tão difícil de descrever não me faz peixe
Um acordado sonho real que me faz buzinas
Que me faz prédios e transeuntes de que nem sei
E no metrô no destino que não me faço escapar
Tão fácil me descrever lápis
(em grafite que me faz cinza)
Voltando a cama numa saudade de rio
Carne-pele-minha pele - alma ?
Um acordado sobre meus pertences inexatos
(tão difícil este deserto de poeiras em meus olhos)
Neste rio que não me banha presentemente
(há saudade de deserto neste momento percorrendo uma longa jornada para a água)

Os amigos:


Penso
Que deveríamos nascer árvores próximas
Igual as águas ajuntadas de um rio
Penso e logo existo
Se estou cheio de árvores
Penso
Que enalteceríamos de pássaros
Que entorpeceríamos de peixes
Penso e logo existo
Se estou cheio de águas
Penso
Não neste instinto fraternal que me leva
Já não me sou sem esta profilaxia
Penso e logo existo
Nestas folhas que me vão
Penso
Que cada qual se pertence
Igual ser primo, irmão e igual à roseira nascida na lata
Penso e logo existo
Se estou cheio de vento
Penso
Que quando desarranjo palavras
Arranjo liberdade para elas
Penso e logo existo
..depois eu canto.

Abraços de rios

Por ventura
Destes rios devaneados
Pressente-se transparências ...
Rotinas de águas
Tem tom de corredeiras
Ribanceiras
Donde:
Multiplicam-se
Dividem-se
Nomeam-se adjetivados:
Mimoso-formoso-formosinho-perdido-...

Confúcio

Existir
A caminho de tudo
Exaurir
A caminho do nada
Uma bifurcação de onde seguir
Uma ajeitação de ventos me confunde
Quase final de tarde
Parei para ver as cores
Quantas ...
Continuar a existir de bifurcações
Entender a natureza
Necessariamente a humana ?
Uma ajeitação de ventos me confunde:
(neste mundo todo - não mais rupestre era eu)

Chove

Chuva com vento e aurora
Neste tempo sem demora
A rua partida de calçadas
O armazém de meu pai
Esquecido
Urge também a memória
Lavada e enlameada
Lama da poça-face
Mas lúcida e lavada
Polvilhar a estância com chuva comprida
Rajadas de soltos ventos alongado de árvores
Relâmpagos ao sul e coqueiros dispersos
Limítrofes desandam com este vento
Na mesma rua partida de calçadas
O armazém de meu pai
(sob o depósito de labirintos no atacado e varejo)
Neste tempo sem demora
Demora o esquecido
Chove ...

O tempo das cousas

Quando começava a ventania
O pé de paraíso soprava mais forte
E a terra corria de pó
O pé da chuva estava por perto
(nestas alturas minha mãe já havia coberto os espelhos e colocado a peneira em baixo da mesa pra não vir tempestades)
Chovia-se ...
Num canto de menino um estado de pensar
Quando se é menino o pensamento é misturado
Na chuva mistura-se tudo:
Imaginei uma colher bem grande que ajeitava as cousas
Sobre a enxurrada
(estas cousas todas eram do seu Manoel de Barros)

O goleiro


Quando o campinho tava molhado
Colocava minhas luvas compradas
Em Bela Vista – Paraguay
Bem difícil algum gol zombar de mim!
O Johnny, o Rauthemar, os meninos ...
Os jogos, os campeonatos, os uniformes
Os chutes, as defesas, as bolas nas traves
Os risos, os tererés, as rodas de amigos...
Gol para tudo isto:
Assim aprisiono as lembranças ao fundo da rede
(o verbo aprisionar quando é de lembrança quer dizer-se solto)

O menino

Não abstênio de comida
Pois meninos em idades de início nem comem
Brincava de carrinho com controle remoto
A mãe enchia sua paciência
Sua paciência o levava a construir
Estradas para o seu carrinho ...
Coma menino!
Ele então fingiu comer no vazio de sua boca(brincar de fingir alimenta)

Seiva


Viver estando em algum
Estado que se acomete de ser
Amar sobretudo o tudo e todavia
Desprender-se do que não há de ser
E convalescer-se de alma ...
Viver sem querer não ser o ser que talvez
Porventura – num viver acometido de coisas
Absteve-se
Esta seiva porventura que rala do orvalho
Tem gosto de viver em lugar nalgum
Por decerto que está de molho no mundo
O mundo do orvalho sobre todas as coisas ...

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