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quarta, 20 de outubro de 2021

quinta, 26 de agosto de 2010

POR QUE CONSUMIR PESCADO É ESTRATÉGICO?

Jorge Antonio Ferreira de Lara

Esta é uma pergunta que aparentemente tem resposta óbvia, entretanto, devemos pensar então porque ainda são necessárias reflexões sobre o assunto no início do século 21? Talvez porque ainda não sejam concretos para a sociedade os benefícios de produzir e consumir pescado no Brasil. Ou, talvez a resposta seja outra diferente desta.

Não vamos aqui esgotar a questão ou querer dar respostas aparentemente óbvias a questões talvez não tão óbvias assim. Vamos tentar dar início a uma discussão, trazer mais dúvidas que respostas, pois esperamos que, assim haja mais benefícios para todos, nesse momento, do que as respostas prontas.

Vamos partir da primeira hipótese. Por que não seria tão evidente para a sociedade que é muito bom produzir e consumir pescado? A resposta inicial poderia ser: porque não é lucrativo o suficiente e porque o produto custa caro para o consumidor. Será mesmo? E se for verdade, o que está faltando então para que esta suposição seja descartada?

Será que falta gente querendo produzir? Acho que não, em nossos constantes deslocamentos Brasil afora verificamos como há pessoas já ativas na produção e outras interessadas em entrar na atividade. Há o risco do custo não compensar o benefício? Talvez haja, mas pergunto em qual ramo da economia que esse risco não ocorre? Se há a hipótese do custo/benefício da produção, porque tem gente que consegue? Porque todos não desistem e passam para outra atividade?

Acredito que faltam tecnologia e transferência das técnicas. Por muitos anos, sérios e abnegados pesquisadores do nosso país vem se dedicando a propor tecnologias para a aqüicultura e pesca. Muitas delas estão consolidadas, outras ainda precisam ser desenvolvidas e melhoradas. Tecnologias bem desenvolvidas, ou seja, úteis e incorporadas à rotina de manejo, na prática reduzem custos, ou não?

Agora pergunto, existe um pacote tecnológico pronto para atender a todos os aqüicultores e pescadores, pequenos e grandes, nas diversas áreas do Brasil? Pois é, deixo a resposta para os generosos leitores. Ajudo dizendo que, para bovinos, suínos e frangos talvez haja. Caso existam também alguns pacotes para o setor aquícola e pesqueiro, o mesmo está sendo transferido a contento para o setor produtivo? Se não está, não seria a hora dos produtores, agroindústria, pesquisa, governo e extensão rural se mexerem nesse sentido? Caso ainda não o tenham feito, seria muito bom esses segmentos da sociedade se unirem e correrem atrás do prejuízo. Questão de sobrevivência... ou não?

Do outro lado da moeda, peixe é caro? Quem sabe, nem sempre é fácil encontrá-los nas gôndolas do varejo para verificar. Quando a gente acha, tem pouco e acaba custando caro mesmo. Mas será que deveria ser assim? Concordo que pode ser difícil colocar pescado no varejo o tempo todo, são tantos fatores envolvidos, sazonalidade, ora faltam alevinos, ora sobram porque não tem quem compre, e o custo da ração? E a cadeia de distribuição, é boa? Bem, são esses e muitos outros fatores.

Mas o consumidor quer saber disso? Ele vai ser solidário e comprar pescado toda vez que o vir no supermercado porque o setor é esforçado, brasileiro e não desiste nunca? Ou ele vai procurar aquilo que é mais prático e viável para o seu dia-a-dia. Parece-me que ele está alheio a isso, o problema é nosso, governo, indústria, pesquisa, extensão e produtores que atuamos na área é que temos de dar um jeito  de conquistá-los com as três coisas mágicas que abrem portas no mercado: escala, preço e padrão.

Se algum disciplinado leitor, que conseguiu chegar até aqui afirmar: – O senhor está desinformado! Claro que temos escala, preço e padrão. Senhor, não se discute isso, tenho certeza que todos nós temos vários bons exemplos de sucesso Brasil afora de como produzir e comercializar pescado. Aliás, é graças ao exemplo desses pioneiros e competentes empreendedores que nos motivamos a escrever essas linhas. Obrigado por tudo. Mas, vem outra pergunta: em escala nacional, podemos garantir que grande parte de nossa produção está neste estágio?

Todas as espécies comercializadas estão atendendo plenamente o cliente? Se eu quiser opções eu encontro? Se for assim, por que carne bovina e de frango são consumidos cerca de 40 kg/habitante/ano e de pescado aproximadamente 7 Kg/habitante/ano? Não gostaria de emitir opinião a esse respeito, são muitas respostas possíveis, gostaria sim de fomentar a reflexão. Uma vez estávamos organizando um evento na área de pescado, tivemos muita procura e faltou carne de peixe para atender o evento. Corri desesperadamente para o supermercado, precisava de cortes e produtos de rápido preparo. Pergunte se achei. Achei sim, vários produtos de muita praticidade, só que de outras carnes que não pescado.

Se alguns outros leitores concordarem com a questão da escala, preço e padrão e me questionarem como fazer isso, também não tenho resposta pronta. Mas para ajudar posso sugerir que um possível ponto de partida é perguntar para o cliente o que ele quer, mas perguntar mesmo. E não se contentar em: bem isso é demais para nós, não vale a pena, a margem de lucro é pequena. Só para lembrar quem chega primeiro ao rio, teve de descobrir o caminho, mas também bebe a melhor água.

Agora, quanto ao por que consumir pescado é estratégico para o Brasil. Ora, essa resposta é mais óbvia. Porque o pescado é fonte de proteína de excelente valor nutricional, de gordura rica em ácidos graxos poli-insaturados (definir poli-insaturados para o leigo), faz bem para a saúde, fará nosso povo mais forte e disposto. Permite produzir toneladas de produtos de origem animal, em menor espaço comparativamente com outras espécies produtoras de carne, o que libera áreas para a produção de biocombustíveis e outros alimentos com menor dano ao meio-ambiente.

A pesca absorve e gera renda para muitas comunidades rurais, contribuindo para melhorar as condições de vida de quem vive no campo. A atividade pesqueira ajuda na defesa do país, pois os barcos pesqueiros em alto mar ou nos rios mais afastados da Amazônia e do Pantanal trazem movimento a regiões que senão ficariam no isolamento mesmo e, entre tantos outros motivos, podemos citar o principal, carne de peixe é muito saborosa.

Jorge Antonio Ferreira de Lara (jorge@cpap.embrapa.br) é pesquisador da Embrapa Pantanal e atualmente ocupa a função de Chefe Adjunto da Área de Comunicação e Negócio.

COLUNISTA

Embrapa Pantanal

embrapa@portalbonito.com.br

Embrapa Pantanal, Coluna de publicação de artigos da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias do Pantanal.

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